Crônica: O Sol é Azul

– Mãe, o sol é azul!

            Fiquei surpresa quando ouvi do meu pequeno a frase acima. Não por ele estar com apenas dois anos e ter formado uma frase completa com sujeito, verbo e predicativo do sujeito. Nem por ele ter dito que a cor do sol não é a mesma que todo mundo diz ter. Até porque ele acabou de descobrir que azul é uma cor, portanto toda cor que lhe chame a atenção é azul, até mesmo o sol.

            O meu espanto aconteceu por eu ter ouvido a mesma afirmação duas semanas antes de um amigo da faculdade. Ele fez um reboliço com essa frase e ninguém conseguiu convence-lo do contrário. Em meio às frases repetidas e um tanto irritadas das nossas colegas de classe.

            – Márcio, o sol pode ser amarelo, laranja e até avermelhado, mas nunca azul!

            Ele respondeu com a cara de quem fazia uma descoberta científica provando que a teoria da relatividade estivesse errada.

            – O sol é azul! Olha para o sol diretamente que você vai saber que o sol é azul.

            Pensei. Mas não precisei pensar muito, até porque eu já havia pensado nisso, mas nunca tive coragem de dizer em voz alta. Então saí em sua defesa. Contudo, como éramos a minoria e a aula já iria começar, a discussão terminou assim mesmo, cada um com sua visão de cor de sol. Já no intervalo, ninguém mais falava sobre o assunto, todo mundo nem pensava mais sobre a cor do sol.

            Menos eu. Descobri que não só eu via o sol azul. Descobri que não sou louca, ou pelo menos, não sou a única. Descobri que apesar de a maioria possuir uma visão geral em comum, cada um percebia um detalhe diferente na cor do sol.

            Descobri de que nós seres humanos temos uma visão de mundo muito parecida, como justiça, paz, morte, vida…, porém pequenos detalhes fazem-nos diferentes, até mesmo na maneira de ver o sol, que é tão comum a todos.

            Descobri que nossas ideias, por mais absurdas que possam nos parecer, sempre tem algum louco que pensa como nós, provando-nos que não somos loucos quanto imaginávamos.

            Depois destas descobertas, o que eu poderia responder ao meu filho Afinal ele vai ter muito tempo para fazer suas descobertas:

             – É… Felipe, o sol é azul!
Texto em que fui vencedora na Categoria Crônicas do Prêmio VIII Varal Literário da Unespar em 2005.

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